Selic e juros do empréstimo: o que os dados do Banco Central mostram

Veja como comparar a Selic com as taxas médias do empréstimo pessoal e do consignado e quando uma mudança na taxa básica chega ao seu contrato.

Quando a Selic, a taxa básica de juros da economia, sobe ou cai, um empréstimo com juros prefixados, aqueles definidos no dia da assinatura, mantém a mesma taxa. A mudança da Selic não reescreve contratos com taxa fixa.

Os dados do Banco Central mostram que as taxas médias das três modalidades de crédito pessoal analisadas ficam acima da Selic e variam bastante entre si. Em 23/10/2026, a meta da Selic definida pelo Copom era de 13,75% ao ano, enquanto a taxa média do crédito pessoal não consignado foi de 5,94% ao mês na referência 01/01/2025.

Os dois números estão em períodos diferentes, um ao ano e outro ao mês. Só depois de convertidos para a mesma base eles mostram a ordem de grandeza dessa distância, já que as datas de referência também são diferentes.

O que é a Selic e quem a define

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. A meta dessa taxa é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central e é divulgada em percentual ao ano.

O Banco Central publica a meta na série 432 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS), com registro diário desde 05/03/1999. Como a série é diária, ela permite ver em que data cada nova meta passou a valer.

A meta da Selic não é a taxa que um banco cobra de você. Ela é uma referência da política monetária, e os juros do crédito ao consumidor aparecem em outras séries do mesmo Banco Central.

Como a Selic se relaciona com os juros que você paga

As taxas médias usadas aqui se referem ao crédito com recursos livres, como indica o nome de cada série no portal do Banco Central. Cada série mostra a média do mercado em uma modalidade.

A primeira dificuldade da comparação é o período. A Selic é expressa ao ano, e as taxas médias do crédito pessoal e do consignado são expressas ao mês.

Para colocar as duas na mesma base, a conta usa juros compostos: some 1 à taxa mensal, eleve o resultado à 12ª potência e subtraia 1. Em uma simulação com 2% ao mês, o cálculo fica 1,02 elevado a 12, menos 1, o que dá cerca de 26,8% ao ano.

Multiplicar a taxa mensal por 12 dá um resultado errado, porque ignora os juros sobre juros. Na mesma simulação, 2% ao mês vezes 12 daria 24% ao ano, menos que os cerca de 26,8% ao ano do cálculo correto.

Outro cuidado: a Selic e as taxas médias são taxas de juros. O CET (Custo Efetivo Total), que soma juros, IOF (o imposto federal sobre operações de crédito), tarifas e seguros, é outra medida e não deve ser comparado diretamente com elas.

Selic e taxas médias por modalidade: o que os dados do Banco Central mostram

Os valores usados nesta comparação vêm da meta da Selic (SGS 432), da taxa média do crédito pessoal não consignado (SGS 25464), da taxa média do consignado para aposentados e pensionistas do INSS (SGS 25468) e da taxa média do consignado para trabalhadores do setor privado (SGS 25466).

SérieTaxa publicadaData de referência
Meta da Selic13,75% ao ano23/10/2026
Crédito pessoal não consignado5,94% ao mês01/01/2025
Consignado para aposentados e pensionistas do INSS1,75% ao mês01/01/2025
Consignado para trabalhadores do setor privado2,91% ao mês01/01/2025

As datas de referência são diferentes: a Selic é de 23/10/2026 e as taxas médias são de 01/01/2025. Por isso, a comparação mostra a ordem de grandeza da distância, não a diferença exata em um mesmo dia.

Esta simulação converte cada taxa pela regra dos juros compostos, com valores arredondados.

SérieTaxa publicadaEquivalente na simulação
Meta da Selic13,75% ao anocerca de 1,08% ao mês
Crédito pessoal não consignado5,94% ao mêscerca de 99,9% ao ano
Consignado INSS1,75% ao mêscerca de 23,1% ao ano
Consignado setor privado2,91% ao mêscerca de 41,1% ao ano

Nessa simulação, a taxa média do crédito pessoal não consignado equivale a mais de sete vezes a meta da Selic em base anual. O consignado para aposentados e pensionistas do INSS fica mais perto da taxa básica, mas ainda é maior que ela na simulação.

Uma taxa média é uma média do mercado. A proposta que você recebe pode ser diferente dessa média, conforme a instituição, o prazo e o seu perfil.

Contrato com taxa prefixada ou pós-fixada: quando a mudança da Selic afeta você

O que define se a Selic mexe no seu contrato é a forma como a taxa foi combinada.

  • Taxa prefixada: a taxa e o valor das parcelas ficam definidos na assinatura, e uma mudança posterior da Selic não altera o que foi contratado.
  • Taxa pós-fixada: a taxa é ligada a um índice que varia ao longo do tempo, e o custo da dívida pode mudar quando o índice muda.
  • Contrato novo: vale a taxa oferecida no momento da contratação, com as condições daquela data.

Para saber qual é o seu caso, procure no contrato a descrição da taxa de juros e o índice de referência, quando houver. Se o texto não deixar isso claro, peça à instituição a informação por escrito.

Se você tem um contrato prefixado e as taxas de mercado caíram depois da assinatura, a queda não chega sozinha às suas parcelas. Nesse caso, duas saídas possíveis são a portabilidade, que é transferir o empréstimo para outra instituição com condições melhores, e a renegociação, que é combinar novos termos com o mesmo credor.

O raciocínio vale também para quem pensa em contratar. Uma queda da Selic não garante que a taxa oferecida a você caia na mesma proporção, já que as taxas médias ao consumidor estão em outro patamar.

Juros do cartão de crédito ficam fora desta comparação

As séries usadas aqui cobrem o crédito pessoal e o consignado, não o cartão de crédito. Por isso, esta comparação não mostra os juros do rotativo, o crédito que entra quando a fatura não é paga inteira, nem os do parcelamento da fatura.

Para entender esses custos, veja o guia sobre cartão de crédito e dívidas.

Por que a distância até a Selic muda de uma modalidade para outra

Os dados mostram um padrão claro entre as três modalidades de crédito pessoal. As duas linhas de consignado, em que a parcela é descontada direto do salário ou do benefício, têm taxas médias menores que o crédito pessoal sem esse desconto.

Mesmo entre os consignados há diferença. Na referência 01/01/2025, a taxa média para aposentados e pensionistas do INSS foi de 1,75% ao mês, e a taxa média para trabalhadores do setor privado foi de 2,91% ao mês.

Como as duas modalidades têm desconto direto na renda, a forma de pagamento sozinha não explica toda a diferença. Cada série se refere a um público específico: pessoas aposentadas e pensionistas do INSS devem olhar a série do INSS, e quem trabalha no setor privado, a série do setor privado.

Na prática, a Selic sozinha não indica quanto você vai pagar. Na simulação, a diferença entre o consignado do INSS e o crédito pessoal não consignado passa de 70 pontos percentuais ao ano, uma distância muito maior que a própria meta da Selic.

Como acompanhar a Selic e as taxas médias no Banco Central

As séries oficiais estão abertas a qualquer pessoa e podem ser consultadas pelo celular.

  1. Abra a página da série 432 no Portal de Dados Abertos do Banco Central para ver a meta da Selic e o histórico.
  2. Use a visualização gráfica da meta da Selic no SGS para ver em que datas a meta mudou.
  3. Consulte as séries 25464, 25466 e 25468 para as taxas médias do crédito pessoal e do consignado.
  4. Compare sempre taxas no mesmo período, ao mês com ao mês ou ao ano com ao ano.

A meta da Selic é uma série diária, e as taxas médias do crédito são séries mensais, como indica o próprio nome delas no portal.

Quem baixa os dados em JSON ou CSV precisa conhecer um limite: desde 26/03/2025, as consultas da série diária da Selic exigem filtros, e as consultas por período ficam limitadas a 10 anos.

Para ler outros conteúdos sobre juros com base nesses dados, veja as análises sobre o mercado de crédito no Brasil.

Próximos passos para avaliar o seu crédito

  1. Confira no seu contrato se a taxa é prefixada ou pós-fixada.
  2. Se a taxa for prefixada e você quiser pagar menos, peça propostas de portabilidade a outras instituições e compare as condições.
  3. Compare a taxa de juros da proposta com a taxa média da mesma modalidade, sempre na mesma base de período.
  4. Para comparar propostas entre si, use o CET, que inclui juros, IOF, tarifas e seguros.
  5. Se você recebe aposentadoria ou pensão do INSS ou trabalha no setor privado, consulte a série de consignado do seu grupo antes de assinar e veja o guia sobre crédito consignado.
  6. Se as parcelas já pesam no orçamento, procure o credor para uma renegociação antes de atrasar e veja as orientações sobre cartão e dívidas.

Acompanhar a meta da Selic ajuda a entender o momento do mercado. A decisão de contratar, porém, depende da taxa e do CET da oferta que chega até você.

Fontes